Cartas e relatos de uma campeã, Luiza Pinheiro PDF Imprimir E-mail

Relatos de guerra

Abaixo segue alguns relatos de uma moradora de Teresopolis, Luiza Pineheiro. Campeã Sul Americana de Hipismo e muitos outros titulos. Esses relatos foram escritos  nos dias subsequentes da tempestade e deslizamentos que assolaram a Região Serrana do Rio de Janeiro.

Com poucas palavras, ela relata o desepero e desamparo de uma população que, jamais imaginaria a força que a natureza tem........

 dia 1 - A todos os amigos que se preocuparam,

Todo os cães e eu estamos bem.
Estamos sem luz, sem telefone, internet, sem água (que foi cortada pelo risco de contaminação dos corpos dentro dos rios), poupando bateria de celular.
Entre minha casa e a primeira curva havia 7 barreiras e deslizamentos, mas hoje a estrada já foi liberada para moradores e consegui fazer chegar a ração que havia faltado.
Todos os moradores do meu condomínio deixaram suas casas a pé, a água subiu a uns 2 metros para dentro do condomínio e duas casas que ficavam mais baixas, perto do rio foram varridas com perda de tudo dentro (uma está inteiramente rachada).
Eu fiquei aqui "com os ratinhos do navio".
Minha casa não tem mais cercas pela ação da água e os cães estão presos em um local menor e não entendendo o porquê de não serem soltos.
De hoje para amanhã perto de mim as coisas devem melhorar, talvez com luz e, daí,com celular.
Vim até uma lanhouse para escrever a todos os que foram maravilhosamente incríveis procurando notícias e oferecendo ajuda.
A primeira melhor ajuda que cada um poderá dar é adotar os cães das protetoras de Teresópolis, para que possamos abrir espaço para os que teremos que resgatar. Nem todas as protetoras do estado dariam conta do sofrimento que sei que não vou conseguir descrever para vocês.
A segunda ajuda será certamente financeira, porque estes cães estão paralíticos, fraturados, sendo comidos por bicheiras dos ferimentos e começando a ser apedrejados pela população com medo de doenças ao vê-los em estado desesperador e começando a se atacar entre eles por fome.
Vagam pelas ruas em desamparo sem socorro.
Sinto tanto por estar fornecendo o número da minha conta, e nem tenho ideia do aporte financeiro que será necessário.
Tomara que eu consiga organização suficiente para prestar contas do que foi doado e gasto, mas a esta altura muitas das protetoras agirão sozinhas, muitas estão isoladas e não teremos ajuda para dar conta de cães e contas.
A cidade é o Haiti, nas regiões mais afetadas o cheiro está insuportável, os corpos chegam em caminhões baú, 60, 80 de uma vez. Ou levados pelos moradores que ainda têm carro, em pickups, caminhonetes, fuscas. Não se conseguiu fazer uma contagem oficial, os que foram computados são apenas os que foram reconhecidos. Pessoas passam boiando pelos rios.
Pelas ruas os corpos estão amontoados, ou sob escombros que máquina nenhuma conseguirá retirar. Começam-se a encontrar pés, braços.
Os animais ficaram para trás em casas trancadas, sem comida ou água, ou no alto das ribanceiras despencadas, andando de um lado para outro em desespero, sem conseguir descer.
Os poucos moradores que deixam suas casas arrastando animais desesperados chegam no local onde são recolhidos pela Defesa Civil para descobrir que não poderão levar seus animais para os abrigos. São então abandonados às dezenas neste local.
Tem chovido intermitentemente, mas não forte, mas as próximas previsões são assustadoras.
Os bairros onde sobraram casas em pé serão totalmente evacuados por conta do risco de rompimento da barragem do rio mais afetado. Mais animais estarão sem socorro de qualquer espécie.
Não tenho ideia de como será possível para cada um de nós andar pelas ruas sem poder socorrer a todos.
Ao lado de minha casa é o sítio por onde as pessoas cruzavam o rio para chegar ao outro lado do asfalto, fugindo das catástrofes.
Era como um êxodo de guerra, helicópteros de todas as cores cruzando os céus às dezenas, sirenes a noite inteira, levas de pessoas, sempre em silêncio absoluto, adultos carregando suas crianças e seus bebês, homens vergados sob o peso do que era possível carregar nas costas.
Todos de cenhos franzidos, idosos em passos arrastados, todos com estórias para contar de terrores inimagináveis.
Doem, por favor doem. Qualquer coisa, ou de tudo um pouco.
Faltam, além de todo o básico óbvio na cidade, velas, fósforos, pilhas de todos os tamanhos, lanternas, pasta de dente, fraldas, absorventes femininos, medicamentos, A prefeitura se mobilizou e comprou todo o estoque das farmácias, que, mesmo assim não dá conta, então faltam medicamentos para as equipes de resgate e para os moradores.
Roupas já nem são tão necessárias, nem cobertores, mas lençóis, fronhas e travesseiros sim.
O mais necessário é água, muita água, muita água, muita água. Nas casas cujas caixas d'água ainda retêm alguma água, ela tem que ser fervida para diminuir o risco de doenças.
Já existem casos de leptospirose e de tétano, e o número vai aumentar exponencialmente nos próximos dias. A população de ratos nem se esconde mais nestes locais mais atingidos, eles fazem parte do cenário de caos.
Nos abrigos improvisados para os animais, além de ração e medicamentos, pede-se papelão para eles deitarem, potes de sorvete para servir de tigela de ração e água, muito jornal, e correntes, porque é a única forma de mantê-los todos juntos sem que briguem.
As pessoas que se dirigiram espontaneamente aos abrigos da prefeitura e que foram acompanhadas em suas caminhadas de dezenas de quilômetros por seus fiéis animais de estimação tiveram que deixá-los na porta. O centro da cidade está coalhado de cães desnorteados, cruzando as avenidas que, durante o dia têm o trânsito quase parado de tão lento. O perigo maior para eles é à noite, quando vários são atropelados, andando sem saber para onde estão indo.
A cidade hoje está sendo saqueada, pedestres estão apanhando nas ruas.
Acho que perto de minha casa estarei em segurança, mas em minha primeira saída de casa já encontrei um cão que se arrastava na estrada e uma mãe e uma filhotinha que conseguiram não se separar em meio à tragédia. Vamos mendigando lares temporários para eles, mas os corações já estão ocupados ajudando os humanos.
Em minha casa, lotada de animais e com menos espaço, a lama contaminada já provocou seu efeito em diarreias e verminoses em meus cães antes saudáveis, Nos perguntamos como os desnutridos passarão por todas as provações. Caminho pela cidade com mochila nas costas lotada com mais de 5 kg de ração atualmente, tentando aliviar o sofrimento de todos os que não posso ajudar.
O outro lado desta estória é o trabalho incansável e incessante das equipes de todas as procedências, trabalhando madrugadas adentro sem cessar, no breu, na chuva, no risco, nos deslizamentos. São os que liberam estradas, recolocam postes, levam e buscam moradores, doações, resgatam, tratam, socorrem. Nem tem mais cara de trabalho, mas de uma missão em que ninguém para enquanto não estiver concluída.
São repórteres chorando em frente às câmeras por não suportar a visão do que é indescritível.
Soube agora na lanhouse que caíram mais barreiras na minha estrada, não sei se consigo voltar para casa, mas vou tentar pela mata para não deixar mais alguns desassistidos. Afinal um querido escritor não disse que "somos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos"?
Vou tentando dar notícias nos próximos dias. O céu está bem carregado hoje.........


Teresópolis - 5º dia

São apenas 5 dias e já parece um ano ou mais.
É fácil ficar sem luz, sem telefone, já que os celulares funcionam.
Água é mais difícil porque panos de chão para limpeza não podem ser lavados com a mesma rapidez, então, os que querem doar já sabem o que incluir na lista. A Lidia Bastos lembrou de adoçantes e produtos afins porque existem muitos diabéticos e idosos com glicose alta.
A vida continua sendo possível sem geladeira, sem televisão, sem telefone, sem computador, mas nunca sem celular!!!!!
A vida nas cavernas é perfeitamente possível, gente. Me programei para acordar na primeira claridade da manhã, ou "escuridade" ainda e, ao final do dia já estou tão cansada de andar na lama que leio o jornal, à luz de uma única vela para economizar, e embalo o sono ouvindo no rádio, só nesta hora, as notícias das rádios locais, com as minhas últimas pilhas.
Mas a Dudu já veio ontem do Rio com pilhas e velas para me entregar hoje. Nossa Senhora das Velas e Nossa Senhora das Pilhas, a Dudu!
Apesar de há cinco dias eu não ter feito nenhuma refeição daquelas que se pode chamar de refeição, e não vejo ainda o dia em que isto vá acontecer. Quem quer cozinhar numa situação destas? Como nas cavernas...
Muito rápido a gente se reacostuma e, numa caverna o chão não precisaria ser limpo a cada pegada de lama.
Banho frio é a pior parte, brrrr... odeio água fria (de boca fechada, caso a água da caixa já esteja contaminada) e o sabão não sai do corpo facilmente.
A vinda para cá é totalmente segura, quem sobe a serra relata que não dá para acreditar que aconteceu qualquer coisinha. Foi afetada apenas uma faixa campestre da cidade, que se estende até a área rural e na direção dos outros municípios.
Garanto a vocês que a vinda é segura.............
E a cidade está fortemente policiada, CORE BOPE, Polícia Especial, Civil, Militar, Rambo, Homem Aranha, Schwarzenegger, X-Men, todos por aqui. Também tem alguns vampiros crepusculares saqueando as residências, mas meus fiéis cães ficam tomando conta da casa enquanto escrevo para vocês. São de confiança e nunca é preciso duvidar deles!
Hoje estão subindo, a pedido da minha amiga Vivian Rocha Maia, um grupo de cães farejadores para ajudar nos resgates dos soterrados, Daqui a alguns dias eu escrevo tudo o que sei sobre estes resgates, aprendido com minha querida amiga Bia Hermanny, lá no Texas, cujo golden retriever foi treinado para isto no Texas.
Mas as coisas estão melhorando perto de mim, agora já ando com lama apenas nos tornozelos e não nos joelhos. Venho ao supermercado e à lanhouse a pé ou, quase sempre, de carona de pessoas que passam os dias para lá, levando os que estão caminhando, e para cá trazendo os que caminham em sentido contrário.Todos já devem estar cheios de ouvir os agradecimentos, de tanto que á emocionante a ajuda de todos os lados, inclusive a de vocês, que doam, telefonam, escrevem, se oferecem para subir a serra para colocar a mão na massa, na lama. Vocês são o máximo, tenham a certeza.
Quem resgata pessoas nos morros se enterra até a cintura (e cada passo é um esforço sobrehumano para puxar a perna que a lama insiste em chupar - nunca se imaginou que caminhar pudesse ser tão cansativo) e improvisa caminhos por cima da lama com galhos, gravetos e folhas para não afundar e retirar os doentes, às vezes obesos, em macas mais improvisadas ainda.
Alguém cedeu um galpão na cidade onde já estavam até ontem 68 cães resgatados, muitos por voluntários do Rio, que vieram ajudar em resgates impossíveis para nós protetoras, como cães de guarda treinados que, mais do que nunca, defendem os territórios que sobraram de seus terrenos levados pelas águas. Ou pitbulls, em muitos casos, desesperados como gatinhos dóceis de tanto pavor e fome, presos em correntes ainda.
Cães e gatos já começam a comer os cadáveres, que fazer? Quando são resgatados vomitam nos carros odores inimagináveis de carne em putrefação.
Meu pedido de hoje?
Que se lembrem que estamos nos nossos "15 minutos de lama", mas que isto vai passar e, como em todas as outras tragédias, a memória vai esvanecer e o coração se acostumar a estas emoções. Mas que nos abrigos os cães continuarão a ter que ser alimentados por meses a fio, e talvez para sempre. Alguns são idosos, outros paralíticos e muitos deles não encontrarão novos donos. Alguns, se vê claramente, tinham bons donos, estão até beeeem gordinhos, mas muito provavelmente estes donos morreram. Muitos deles tentando salvar seus animais. Muitos animais morreram não querendo sair de perto de seus donos em desespero.
Nossa amiga e protetora Adriana Figueira e sua amiga Graça foram levadas com sua cadela, a Marrom, que esteve em minha casa e que era uma linda e muito divertida "doidona do bem", pela força das águas.
Adriana e Graça afundaram e emergiram inúmeras vezes tentando se agarrar a qualquer coisa que as mãos tocassem, saíram das águas muito, muito machucadas e com as roupas arrancadas pela força da água, inteiramente nuas. A Marrom? *Ai...*, querida Marrom, querida Marrom, é difícil acreditar que possa ter se salvado. Eles não têm com o que se agarrar, raras são as pessoas que tentam salvá-los quando existem tantos humanos para serem salvos ainda.
Os bancos não abrem, o comércio abre apenas uma porta, mas os jornais chegaram desde ontem. Correio ainda não, lixo idem. Estas equipes devem estar todas mobilizadas em mutirões de ajuda às localidades caóticas. Mas quem reclama? Estão certos. Alguém sabe de alguma palavra que venha depois de caótica para definir a situação? É que parece que caótico já perdeu a definição por aqui...
E eu tenho o firme propósito de nunca mais reclamar da Ampla! Na nossa estrada os postes estavam abaixo, seu concreto esmigalhado pelos troncos de árvores muito maiores do que eles. Os fios de alta tensão todos partidos, ou tracionando todos os outros postes em cadeia, inclinados perigosamente em direção ao asfalto.
É por esta estrada que caminhamos todos os dias e que supomos que iria levar meeeeeses para que o serviço fosse restaurado. Mas o DNIT limpou a estrada trabalhando como loja de conveniência, 24 horas em funcionamento. A Ampla, que recebeu apoio da Light, na sexta feira à tardinha já tinha colocado novos postes, refeito as ligações e restabelecido nossa luz. Agora a luz vem e volta, mas isto é o de menos, o tempo anda instável e a gente compreende todas as dificuldades deles também. Estes trabalhadores deixaram suas famílias e deixaram de reconstruir suas casas para nos ajudar a reconstruir nossas vidas. Vieram de Petrópolis, do Rio, de todo lado. Estes trabalhadores nos relatavam estar 72 horas sem dormir, sem notícias das famílias, esgotados. Mas nunca diziam estamos parando. Alguém sabe uma definição acima de altruísmo, abnegação, generosidade, dedicação?
Amanhã vou me colocar nas filas, tentar ir ao banco, tomar minha vacina contra hepatite, contratar gente para refazer as cercas. Vou ouvir muitas estórias que não desejaria ouvir, mas as pessoas precisam falar. Assim como eu estou fazendo com vocês nestes momentos.
Organizando os pedidos :
Doem. Qualquer coisa. O que sentirem mais afinidade para ajudar.
Adotem animais, ou os saudáveis que já haviam sido resgatados, ou os que acabam de chegar.
Programem-se para continuar alimentando os cães depois que a nossa fama der lugar a outros assuntos. As pessoas terão verbas do governo, mesmo que precárias e desorganizadas.

Um beijo de domingo,

Luiza


Quase um mês passado...
Para quem não perdeu família e amigos próximos, nem sua casa e moradia, as coisas têm melhorado sim. Agora já temos telefone e internet, operadoras de celular sobrecarregadas, luz que vai e volta e água ainda não completamente segura para ser potável. E, com isto tudo, o que falta agora é tempo. Tempo para reconstruir, tempo para ajudar, tempo para resolver coisas, tempo para ouvir o que cada um precisa contar. Estou bem e ajudando em tudo o que posso, mas ando tããããão cansada... uma coisa se emenda na outra, que se emenda na outra, iinfinitamente. Quem perdeu coisas importantes, ou quem faz tudo o que pode pelos outros, a gente logo reconhece pela fisionomia exausta.
Os animais que são resgatados agora chegam cada vez em pior estado, mais esqueléticos, sendo devorados por bicheiras cada vez mais alastradas, com doenças mais avançadas.
E nunca temos a sensação de que ajudamos o suficiente, ou que o trabalho está perto de acabar.
Atualmente, com as máquinas tentando desimpedir os bairros soterrados é que os corpos começam a aparecer em maior quantidade.
A melhor definição que li até agora é a de que as montanhas de rocha, antes convexas, se tornaram côncavas, desabando em incontáveis fragmentos de toneladas, do tamanho de casas, carros, e que cobriram os bairros abaixo. Como se o Corcovado ou o Pão de Açúcar se desintegrassem e numa avalanche de pedras dizimassem todos os bairros abaixo deles.
Pelo meio e por cima disto tudo a lama levada pelos rios se alastrou. Alguns locais não poderão nunca mais ser habitados, serão transformados em parques, reservas, serão cobertos de terra e entregues à recuperação da natureza, com as casas, os carros, as pessoas por baixo de tudo.
Existe muita briga e desavença em todos os setores de distribuição de donativos, órgãos públicos ou privados, e na proteção animal não é diferente. Muitas pessoas perdem o juízo nas acusações que fazem, outras perdem a voz de tanto tentar que as verdades sejam ouvidas.
Existe um clima de instabilidade latente, oscila entre o desamparo e o desespero , entre a raiva e a revolta.
No centro urbano é como se nenhuma catástrofe tivesse acontecido fisicamente na cidade. Mas não existem filas nos bancos, nas casas lotéricas, o movimento nas lojas é reduzido, muitos ônibus circulam mais vazios.
Donativos são tantos que a cidade está abastecida, não tenho ouvido falar em falta de bens de consumo.
No entanto as pessoas que precisam alugar casas não as encontram, ou não por um preço que possam pagar.
O poder público tem tentado dar soluções com a promessa de construção de alguns milhares de moradias que nem de longe atenderão a quantidade de desabrigados. E o tempo que isto irá levar fará com que estas pessoas continuem morando em abrigos em galpões com a sensação de que esta situação se perpetuará.
As aulas começaram, os voluntários têm voltado para suas rotinas, nós estamos aproveitando o que foi iniciado por tantas mãos e corações e damos continuidade da melhor maneira que podemos.
Mas a cidade já ri e sorri, diferente dos primeiros dias, onde silêncio, seriedade e choque eram a tônica.
Eu estou bem sim, gostaria de estar fazendo mais pelos animais e pelos conhecidos que sofreram grandes perdas.
Os donativos são a tranquilidade de que poderemos ajudar mais, por mais tempo e melhor sem mais uma razão de perder o sono.
Minha intranquilidade é a de não conseguir fazer chegar meus agradecimentos a todos os que ajudaram e ainda ajudam. Por favor, por favor, transmitam meu agradecimento a todos que conheçam e que contribuíram. Os que doaram, os que adotaram, os que divulgaram, os que repassaram, os que transportaram. Vocês (ainda bem...) não têm ideia da importância e da dimensão do que fizeram !
Beijos, muitos beijos,
Luiza


Teresópolis - Hora dos Mais Necessitados

Pelos animais,

O tempo passou. Os resgates quase cessaram. Os animais que não foram resgatados das zonas atingidas quando os voluntários estiveram por lá, agora, quando são trazidos por algum morador ou equipe de salvamento, alguns chegam já sem partes do corpo, que foram devoradas pelas bicheiras. A magreza é a que se vê em fotos de campo de concentração. Muitos que se contagiaram com doenças não resistiram, mas alguns estão em estado cada vez mais grave.
Em alguns bairros só ficaram poucos homens, sem rumo, olhar perdido, alguns chorando sem ação, outros entregues à bebida. A imundície é reinante. Os cães rasgaram todos os sacos de lixo procurando por alimento, e este lixo se espalhou pelas vielas, junto com excrementos.
Uma grande parte dos animais que consegue andar até a cidade chega mancando, ou das longas jornadas na lama "grudante", ou por terem ficado presos a escombros antes de conseguirem se soltar.
Duas coisas chamam a atenção de quem sempre resgata animais de rua : a grande maioria deles apresenta inflamação nos ouvidos, o que não é o corriqueiro, daí supormos que muitos tenham tido que nadar para se salvar. A quantidade de lama dos primeiros a serem resgatados reforça esta suspeita. Outro fato diferente é que, ao contrário do habitual que é encontrarmos mais fêmeas do que machos, por serem mais facilmente abandonadas nas ruas pelo incômodo do cio e prenhez, agora são os machos que chegam em quantidade maior. Estamos arriscando o palpite de que as fêmeas se fixam mais aos locais, mesmo destruídos, e que os machos, mais andarilhos, se desloquem com mais facilidade.
Um dos bairros começará a ser evacuado por inteiro hoje. O que será dos animais que ainda andam por lá? Foi muito comovente saber do relato de uma femeazinha encontrada grudada na lama por mais de 13 dias, sob sol escaldante, com o filhotinho que sobreviveu ainda ao seu lado, sem poder mamar. Ambos num estado de desnutrição e desidratação de horrorizar e a mãe com uma bicheira gigantesca nas costas, sem poder se mover. Como sobreviveram é um mistério, devem ter se alimentado da lama.
Muitos sobreviventes relatam que se salvaram pelas reações exageradas de seus animais antes da catástrofe atingir as casas na madrugada. Com o barulho da chuva forte, apenas os animais ouviam, ou sentiam no chão, o barulho e os tremores deste mundo se acabando em água, pedras e lama. E não pararam de latir e de andar e de avisar a seus donos, até que os que souberam dar atenção e traduzir estas tentativas de se comunicar levantaram de suas camas, olharam o mundo para fora de suas janelas e conseguiram escapar a tempo para locais mais seguros.
Quando se vai a essas áreas, até o ponto onde o carro chega, nem sempre os cães descritos pelos moradores como em estado quase terminal estão à vista. Eles podem estar perambulando à procura de qualquer coisa para comer, ou estão entocados com medo, ou se preparando para esperar a morte.
Somente doando ração nestes locais (onde não existe mais qualquer forma de comércio, nem para comprar, nem para vender), esses cães poderão ser alimentados pelos donos que ainda estão lá, ou atraídos e, com muita sorte, resgatados. Estão quase todos apavorados, e os resgates são trabalhosos.
Chegaram milhares de doações, que foram encaminhadas à ONG (muitas também através de nós, protetores). Mas, agora, muitos protetores independentes, que continuam indo a estas regiões assoladas, não conseguem acesso aos donativos - à ração, às vacinas e aos medicamentos que conseguimos com muito esforço nas campanhas - para que sejam levados também às áreas atingidas e deixados com os moradores que continuam lá, para que alimentem os animais de cada local.

Estamos fazendo novos apelos :
- por doações, de todas as formas, que serão sempre bem-vindas;
- às pessoas que tenham contato com distribuidores/fabricantes de ração, medicamentos, vacinas, antipulgas/carrapatos e vermífugos que se empenhem em conseguir estes produtos para os animais, que virão para nossas casas, para as clínicas veterinárias, ou mesmo os que ainda estejam com seus donos;
- aos membros da Proteção Animal para que nos ajudem a organizar feiras de adoção, com todos os procedimentos de posse responsável;
- voluntários para transportar os que poderão ser encaminhados para as feirinhas;
- veterinários para uma campanha de castração;
- a quem ainda possa mobilizar recursos para doações, depois de tudo o que já se mobilizaram para doar;
- pedimos que os doadores doem menos sacos de ração, mas que priorizem rações de melhor qualidade, já que os cães agora chegam em estado de desnutrição severa e que, apesar da fome desesperadora, algumas rações de muito baixa qualidade não são nem reconhecidas como alimento
• • ração de melhor qualidade
• • ração para filhotes
• • ração de latinha, para os doentes, os que nunca comeram ração, ou os idosos, sem dentes
• • antipulgas/carrapatos
• • vermífugos de largo espectro (que eliminem giárdia ex: Canex Premium, Endogard)
• • Capstar (medicamento usado para bicheiras)
• • unguento
• • medicamentos de todo tipo - antibióticos, antiinflamatórios / outros
• • roupinhas para mais adiante no inverno que vai chegar (aqui faz 2º na madrugada)
• • caminhas
• • coleiras e correntes, inclusive as correntes grossas
• • material para castração em massa
• • jornal
• • papelão

 continua.........

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